O tempo na economia e na arte

mona_lisa800Artigo de especialista aborda a importância de realizar análises ao longo dos tempos. Neste texto, a autora faz uma analogia entre economia e arte e traça comparações. Confira!

Nas sociedades contemporâneas, o tempo, instigante dimensão das mais diversas atividades humanas, tornou-se uma variável que preocupa a todos os estudiosos. Cada vez mais a categoria tempo está presente na literatura atual, quer em reflexões filosóficas e análises acadêmicas de todas as áreas do conhecimento, quer em variado material de comunicação na mídia impressa e virtual.

Em economia, o tempo é importante nas decisões dos problemas econômicos fundamentais e interdependentes de qualquer sociedade ou de qualquer organização econômica e está embutido nas conhecidas questões − o que, como, quanto e para quem produzir. Está presente, portanto, na famosa opção entre produzir mais manteiga ou mais armas bélicas no caso de recursos econômicos escassos, como ensinou Paul Samuelson em seu pioneiro Fundamentos de Economia, de 1948 (mais tarde denominado Economia e reeditado com atualizações − atualmente em parceria com William D. Nordhaus).

O tempo é também fator preponderante nas análises keynesianas de propensão a consumir, propensão a poupar e propensão a investir, quer de pessoas físicas, quer de pessoas jurídicas. É a variável básica em cenários sobre decisões de curto, médio e longo prazos nas áreas de microeconomia, macroeconomia, política econômica ou desenvolvimento sustentado; nas análises sobre mudanças climáticas, aquecimento global, devastação ambiental, produção agropecuária ou desafios de prover a população mundial de alimentos; ou, ainda, nas estratégias de investimentos financeiros, imobiliários e outros.

Sabe-se que todas as pessoas enfrentam a necessidade de tomar decisões econômicas “intertemporais”, de fazer escolhas, comparar custos e benefícios no tempo presente e no tempo futuro, de escolher entre o consumo imediato ou determinado investimento, com o objetivo de obter lucros no futuro.

É interessante também observar como o tempo é “representado” no imaginário dos artistas e quais as técnicas que eles utilizam para “mostrar” esse “algo” que percebemos, sabemos que existe, mas não é palpável.

De modo geral, relógios de variadas formas, dimensões e múltiplos usos (inclusive como decoração em arquitetura, fino mobiliário ou joias valiosas) estão espalhados em residências, ambientes de trabalho, espaços públicos, particulares e outros, para “acompanhamento” do fluir do tempo. E quando este tema parecia esgotado, Salvador Dalí surpreendeu o mundo ao destacar a preocupação humana com o tempo e a memória por meio de relógios moles, gelatinosos e flácidos.

Alguns artistas tentam mostrar, também, a “ausência” do tempo − como a imobilidade em obras neoclássicas ou em natureza morta, ou a percepção do vazio e do imaterial por meio de distorções, iluminações, profundidade, ou pela oposição de materialidade e de imaterialidade, superfície e fundo, côncavo e convexo, cheio e vazio (com destaque para obras como as esculturas de Anish Kapoor, indiano radicado na Inglaterra).

A História da Arte registra diversos movimentos artísticos, do classicismo aos dias atuais, em que predomina o desejo de dar visibilidade à “efemeridade” do tempo ou do “instante breve” (incluindo happenings, instalações e performance art); ou exibir o tempo e a intensidade dos “gestos” do artista durante o ato de pintar (Action Painting ou Gestualismo); representar a “velocidade” do tempo por meio de “ações” instantâneas e espontâneas do pintor (Futurismo); ou a vontade de “parar” o tempo, como os ready-mades glaciais de Marcel Duchamp em A Grande Noiva.

Na arquitetura, o tempo é uma quarta dimensão acrescentada ao formato do edifício giratório “Dynamic Tower”, de 80 andares, projetado para Dubai (Emirados Árabes) por David Fisher.

Atualmente, a “economia de tempo” na arte cibernética está em obras criadas “coletivamente” por artistas e equipes de técnicos de informática, comunicação, engenharia, matemática e outras especialidades; ou em obras virtuais de arte, exibidas em netmuseus, netgalerias, netmagazines, sites de comunidades virtuais etc.

Ou então, a comunicação em tempo real oferece várias vantagens, como por exemplo, a “economia” de tempo e de “recursos financeiros” (especialmente as despesas de transporte internacional, hospedagem e outras) devido à crescente possibilidade de os artistas oferecerem online suas obras a colecionadores e a compradores do mundo inteiro.

Ademais, hoje é possível o encontro da oferta e da procura em “Leilões de Arte pela Web” (criados pioneiramente pela Christie’s no final de 2007) com a “presença virtual” de leiloeiros devidamente credenciados. Embora permaneçam em suas residências ou escritórios em qualquer parte do mundo, esses profissionais acompanham as sessões de leilão e lances dos compradores em “tempo real”, já que é ilimitada a possibilidade de acesso à ampla teia de comunicação no ciberespaço.

Igualmente em “tempo real” multiplicam-se os eventos artísticos, debates ou workshops sobre arte entre membros de grupos sem fronteiras e de comunidades virtuais conectadas na Web. Todas as questões ligadas ao tempo e à sua “representação” artística refletem-se, também, na “fruição” da arte – passa-se da contemplação estática e quase sagrada de obras-primas em “museus-santuários”, ao “contato direto” com a arte (como Centros Culturais interativos reais e virtuais). E na Web, obras raras dos mais famosos museus de todos os continentes são oferecidas on-line para fruição, estudo ou análise de admiradores de heterogêneos segmentos sociais do mundo, contribuindo para a democratização e a popularização da arte (durante muito tempo privilégio de nobres e de pessoas de alto poder aquisitivo).

Concomitantemente, o avanço da tecnologia estimula os artistas a buscarem novos espaços-tempo, novas linguagens, novas articulações de cores e de formas, marcadamente despojadas da concepção antropocêntrica do mundo, de seus deuses e seus heróis.

Há, ainda, outros enfoques do tempo que estão em constante interação com a Economia e a Arte: o tempo cronológico, baseado nos ciclos da natureza (nascer e pôr do sol, os ciclos da lua ou as tábuas das marés); o tempo biológico, ligado ao ciclo de vida de todos os seres; o tempo real (“Real Time”) ou a possibilidade de determinado fato e seu processamento acontecerem de modo quase simultâneo; o tempo do trabalho, ou desvinculação das atividades humanas da alternância dia-noite como decorrência do processo de produção capitalista e da concentração dos operários em cidades (e a consequente multiplicação de sinos em igrejas e fábricas para controlar o ajustamento do estilo da vida humana às necessidades da divisão do tempo); o espaço-tempo, sem feição sociocultural e desligada das necessidades humanas com a mecanização do processo de produção; ou o presente extenso que está sendo gerado pela economia globalizada e tende a se tornar um tempo único, sem passado nem futuro.

Todos esses enfoques, todavia, tratam apenas “parcialmente” de um tempo que existe, não é invenção humana, mas não se consegue tocar com as mãos. E enquanto os economistas procuram analisar o tempo objetiva e pragmaticamente, os artistas buscam introduzir sonhos e utopias na sua representação. Então, afinal, o que é o tempo na Economia e na Arte? É interessante a resposta de Santo Agostinho: “se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”.

Por Diva Benevides Pinho (economista, advogada, professora titular da FEA-USP, membro das Associações de Amigos do Museu de Arte Contemporânea (AAMAC) e do Departamento de Economia da FEA-USP (AMEFEA). E-mail: dbpinho@uol.com.br)

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